20 de fev de 2010

Direitos Humanos? O que a escola tem haver com isso?

O que a escola tem haver com isso?

         Gostaríamos de começar esta discussão convidando-os a ler o dois textos logo abaixo: primeiro, um poema em prosa de Marina Colasanti e em seguida, uma noticia publicada em fevereiro deste ano...


Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)
 Texto do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.


Chinês acorrenta filho de 2 anos na rua por medo de perdê-lo

04 de fevereiro de 2010 • 10h40 • atualizado às 12h03
Chinês acorrentou seu filho a um poste em frente a um shopping em Fangshan

Foto: BBC Brasil

Um motorista de moto-táxi chinês que acorrentou seu filho de 2 anos a um poste em frente a um shopping center enquanto trabalhava no distrito de Fangshan, em Pequim, recusou a ajuda oferecida pelo governo local.

Chen Chualiu, 42 anos, afirma que perdeu sua filha de 4 anos no mês passado, e que a medida extrema era a única forma de manter o filho seguro, informou a agência de notícias estatal chinesa Xinhua.

Ele vinha acorrentando o filho desde a sexta-feira, para poder transportar os clientes, mas a prática foi encerrada depois que ele foi contactado por um funcionário do governo local no início desta semana.

Chen Chualiu afirma que a mulher dele é deficiente mental e não pode cuidar das crianças. Por serem migrantes internos, as crianças também não têm direito a ir a uma creche do governo.

"Eu tenho que sustentar minha família", disse ele à imprensa chinesa. "Não tenho sequer uma foto de minha filha para usar em um anúncio procurando por ela. Não posso perder meu filho também."

Chen ganha cerca de 50 yuans (aproximadamente R$ 13) por dia com seu serviço de moto-táxi, que não tem licença para funcionar.

Desde que a história veio à tona na China, várias pessoas ofereceram dinheiro à família em troca de adotar as crianças, mas ele recusou, disse um comerciante local à imprensa chinesa.

O quarto de 10 m² em que ele mora com a família está cheio de roupas de crianças doadas por vizinhos. "Ele é um homem bom e cuida bem de suas crianças, muitas pessoas iam adorar ajudar a família", disse um vizinho.

O governo distrital contactou Chen quatro vezes em 2009, para tentar convencê-lo a voltar para sua terra natal, Sichuan, mas ele se recusou.

"Pelo menos aqui posso ganhar algum dinheiro. Se for mandado de volta para minha cidade natal em Sichuan, não vou ter nada."

Um funcionário do governo do distrito de Fangshan disse que a falta de creches para os filhos dos trabalhadores migrantes é um problema social para várias famílias em Pequim.

"Este menino chamou a atenção por causa das correntes, mas há muitas crianças filhos de famílias migrantes perambulando pelas ruas de Pequim, que não estão protegidas por nenhuma política do governo", disse ele.

Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4245672-EI8143,00-Chines+acorrenta+filho+de+anos+na+rua+por+medo+de+perdelo.html
Acesso: 14/02/2010.

                                                           

     Ao refletirmos sobre o trabalho sobre Direitos Humanos, logo surgem as seguintes questões: Vamos abordar temas delicados como aborto, crimes, violência, etc.? E o que tudo isso tem haver com a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental?

Na verdade, ao pensarmos desta forma, ignoramos que um dos maiores objetivos da educação: Educar para o exercício da cidadania.

A escola ensina cálculos, regras, leis (da física, da química, etc.), mas normalmente não nos ensina a indignar-se. Não conduz os educandos, desde a mais tenra idade, a reflexões e atitudes que levam a atitudes de cidadania. Não somente àquela que se relaciona a não jogar lixo no chão (que também é importante), mas também àquela que gera criticidade, um olhar questionador e de estranhamento diante das mazelas de nosso dia a dia e principalmente, não ensina a realização de ações concretas que contestem as injustiças e problemas sociais ou visem modificar a realidade vigente.

Não são abordadas questões significativas e reais como problemas sociais e possíveis soluções, trabalho com a comunidade, cálculo de valores e juros em matemática ou resolução de situações problemas concretas, leitura significativa, textos reais e crítica em linguagem oral e escrita; estudo de situações humanas em ciências, análise de diferentes versões da história saindo da visão eurocêntrica e do mundo ocidental e mais especificamente da tríade Brasil, América do norte e Continente Europeu. A dissertação normalmente tem fim em si mesma e não em seu conteúdo reflexivo e questioandor.

Muitas vezes, a escola alaga, há guerras de comidas no recreio, alunos sofrem bullying, comem com colher de plástico, há um constante conflito entre alunos e professores, a estrutura do prédio é precária e por todo lado há grades. Algum grupo já parou para discutir essas questões, qual é a motivação histórica desta realidade? O que fazer para modificá-la?

As escolas privadas por sua vez buscam manter-se e os seus alunos longe dos problemas da realidade. Não importam os moradores de rua que caminham por sua calçada, as marcas de tênis e celulares tornam-se os principais focos de atenção, e aqueles alunos que não correspondem aos padrões são humilhados e alijados do convívio coletivo (tornam-se vítimas silenciosas da discriminação e do bullying).

Não se pensa sobre humanidade, sustentabilidade, redução do consumo ou em valorização da diversidade. Enfoca-se principalmente que os alunos são privilegiados por estarem onde estão e buscam simplesmente manter esta dinâmica social.
Algumas vezes, na sala de aula, surgem debates frágeis e inconsistentes sobre problemas sociais, mas logo se esvaem entre um riso e uma careta; assim como em nossas casas, nossos trabalhos e na mesa do bar; como afirma a música de Skank:

Eu fiquei indignado
Ele ficou indignado
A massa indignada
Duro de tão indignado

A nossa indignação
É uma mosca sem asas
Não ultrapassa as janelas
De nossas casas

Porque não aprendemos na escola a acreditar na força do trabalho coletivo? Porque aprendemos que onde há agrupamento há baderna? Porque a mídia reforça esta idéia? Quais são as origens e implicações históricas desta crença?

Porque embora a escola solicite, não ensina a fazer trabalho em grupo? Porque ensinamos a valorizar heróis individuais como Tiradentes, Dom Pedro II, Princesa Isabel e Zumbi e nos esquecemos de contar o restante da história?

Não aprendemos e nem tão pouco ensinamos a nos indgnar com eficiência. Aprendemos a olhar feio, reclamar, questionar dentro de nossas casas, próximo a amigos e até onde a voz fraca alcança.

Precisamos buscar na escola a humanização defendida por Paulo Freire, abordada por Vygotsky. A educação é por excelência instrumento de humanização dos homens *
Precisamos ensinar a tolerância (entre os povos) e a Intolerância a tudo que oprime, que massacra, que diminui o homem em seus direitos fundamentais. Seja uma criança acorrentada sem direito a saúde, educação, alimentação; seja a uma criança pedindo em faróis, quebrando pedras, se prostituindo.

A escola não precisa permanecer no plano das idéias ou do discurso para alcançar tais objetivos. Planejar a realização projetos que envolvam pesquisas, ações sociais,  reflexões e busca de soluções coletivas que visem resolver ou amenizar problemas do entorno ou da própria escola; deve, pois, promover espaços de discussões fundamentadas e que gerem ações concretas. 

Ensinar direitos e deveres pensando coletivamente meios de exigir a execução destes direitos fundamentais. Realizar projetos que visem concientizar sobre problemas sociais e ambientais, e ajudar os educandos a perceberem que todos somos parte do problema e da solução. Buscando não somente que os alunos se apropriem de conceitos, mas que modifiquem atitudes, que construam valores.

Outra questão fundamental: A escola tem por missão, por um lado, transmitir conhecimentos sobre a diversidade da espécie humana e, por outro lado, levar as pessoas a tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre os seres humanos do planeta.**

Deste modo, o trabalho no qual se valorize a diversidade humana não é positivo somente para as consideradas minorias, mas principalmente, auxilia a todos na construção de valores, no respeito à diferenças, na busca da compreenção do outro e a si mesmos, ajudando a descentralizar-se, a colocar-se no lugar do outro, percebendo-o não como inferior ou desigual, mas como diferente. Sendo assim, a inclusão da história e cultura de diferentes povos (indígenas, africanos, orientais, etc.) e religiões nos permite modificar o foco da cultura eurocêntrica, conhecendo outros povos, novas culturas, diferentes versões da história e outros modos de ver e conceber o mundo.  

Conhecer a história, os movimentos sociais, de resistência,  organizações socias diferenciadas da sociedade onde vivemos, ações desenvolvidas por O.N.G.s contribui também para construção de imagens positivas a respeito de organizações e movimentos sociais pacíficos, buscando desconstruir, de certo modo, o imaginário negativo disseminado em nosso pais em anos de ditadura e pós ditadura a respeito de agrupamentos organizados (grevistas, movimentos sociais, etc.) que muitas vezes ainda são considerados sinônimos de baderna. 

Podemos concluir desta maneira, que pensar em educação para direitos humanos, significa permear todas as ações no interior da escola com movimento de respeito, cuidado e valorização de si mesmo e do outro; significa estar atento desde a realização de grande projetos envolvendo toda a escola até os conteúdos a serem selecioandos para cada grupo, o modo como as intervenções são realizadas com cada educando. Significa olhar com estranhamento a sociedade desigual e segregadora onde vivemos e questionar seus valores consumistas, a banalização da violência, a falta de sentimento nas relações sociais.

Significa ensinar a indignar-se com qualidade, sendo consciente de seus direitos e deveres para consigo, com o outro e com o planeta. Os pilares da Educação: aprender a viver junto e aprender a ser, assim como os temas transversais, nos mostram caminhos preciosos por onde podemos começar a trilhar.



* CAPELLI, Vera M. F. .; MARANHE, Elisandra A. Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Coleção UNESP, SECAD, UAB, volume 2. Bauru, 2009.
** DELORS, Jacques. Educação- um tesouro a descobrir. Relatório´para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. São Paulo : Ed. Cortez. 1999.

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