7 de mar de 2010

ESCOLA E SEXISMO: Distinção entre meninos e meninas nas práticas e brincadeiras escolares.



   Trabalho com a mesma turma de Educação Infantil desde o ano passado, hoje possuem cinco anos completos. Com exceção de alguns poucos alunos novos, o grupo permanece quase o mesmo; da mesma forma se mantiveram nossos antigos combinados e regras (com adaptações quando percebemos necessidade).

   Algo neste inicio de ano me chamou bastante atenção: duas alunas que se integraram ao grupo neste ano, em dias e situações diferentes correram até mim com expressão de espanto e indignação no rosto dizendo:

   A primeira menina: _Professora! Eles (os meninos) estão pegando brinquedo de menina!

   A segunda menina : _ Eles estão pegando brinquedo da casinha! Olha prô! e diante da minha expressão de quem não entendia o motivo do espanto, ela completou: _ Pode?

   Estes dois acontecimentos me levam a refletir sobre o quanto ainda é arraigada a diferenciação entre meninos e meninas no contexto escolar e o quanto o gênero acaba determinando os comportamentos esperados, a atividade a ser realizada por cada um e, surpreendentemente, o modo como são avaliados: menino não pode brincar de casinha, de boneca, não faz comidinha, não pode pegar em coisas cor de rosa, não pode chorar, por outro lado, menina não chuta bola, não deve brincar de carrinho, não deve ser agitada, nem tão pouco realizar tarefas que exijam força e agilidade. Podemos citar, por exemplo, a fila como uma das expressões mais acentuadas desta difenrenciação.

   Quando as crianças me fazem este tipo de pergunta, simplesmente lhes devolvo uma nova pergunta: Mulher não dirige? Não trabalha em posto de gasolina? Homem não pode ajudar a cuidar da casa e dos filhos? A mulher também não trabalha fora? E os times de futebol feminino? Conhece a Marta? Porque homem não pode chorar?
      
    Na maioria das vezes, a separação por parte da escola é tão explícita, que há a marca de gênero nos brinquedos inclusive através da cor: panelinhas, fogões e utensílios de beleza e cozinha são cor de rosa; o que aliado a dicotomia: rosa para meninas e azul para meninos, reforça ainda mais o conceito e o preconceito de que às meninas cabe o trabalho doméstico e preocupar-se com estética e aos meninos, outras funções que exigem maior destreza física, força e raciocínio.

   Devemos considerar inclusive, que a marca do preconceito relacionado ao trabalho doméstico em nosso país tem suas origens em tempos remotos, na escravidão. Na qual o trabalho doméstico e braçal era (e continua sendo, na maioria das vezes) considerado pela maior parte da população como sendo menos nobre, menos digno, “coisa de escravos” ou mulheres.

   São estes os conceitos e os preconceitos que queremos continuar propagando na escola?

       Precisamos educar nossas crianças para que cresçam questionando e combatendo qualquer tipo de preconceito e discriminação; para que acreditem que podem sim, ser e fazer aquilo que gostariam e acreditam independentemente de seu gênero, sua etnia ou classe social.



    Outra questão em relação a gênero na escola se relaciona estreitamente à avaliação e aos altos índices de evasão e repetência. Também aos índices de baixo rendimento escolar e recuperação. Porém, este assunto trataremos em um próximo artigo.



OBS: Confira abaixo uma dica de leitura sobre este tema com as crianças.


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